REVOLUÇÃO HUMANA

"A grandiosa Revolução Humana de uma única pessoa irá um dia impulsionar o destino total de um país, além disto, será capaz de transformar o destino de toda a humanidade."





Daisaku Ikeda







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São Paulo, Zona Leste/SP, Brazil

domingo, 22 de setembro de 2013

Resguardar a Felicidade Eterna da Humanidade

MARCOS ROBERTO DOS SANTOS[1]
Universidade Federal de São Paulo - UNIFESP
lotusmappo@ig.com.br

Resumo
Neste artigo está sendo apresentado Daisaku Ikeda, líder religioso, praticante ativo do budismo Nitiren, sábio japonês que viveu no século XIII. Lutador incansável dos Direitos Humanos, bem como da abolição das armas nucleares, Ikeda herda o espírito de seu mestre, Jossei Toda (1900 – 1958), o qual, após se tornar segundo presidente da Soka Gakkai (1951), lança como meta “acabar com a miséria da face da Terra”. Ikeda defende a teoria da Revolução Humana, ou mudança interior, acreditando assim que para produzir os indivíduos e uma sociedade na qual o altruísmo seja o espírito dominante, seja necessária uma revolução interior na vida de cada pessoa. Em muitos de seus escritos é apontado que a tendência moderna é a de os agregados de seres humanos se voltarem para a insensatez, à ignorância de seus direitos, e a busca irresponsável do prazer. Publicou diálogo com personalidades mundiais abrangendo temas diversos, Direitos Humanos, Religião, Sociedade, Filosofia, Astronomia, entre outros. Neste artigo inicialmente é apresentado o diálogo entre Austregésilo de Athayde, presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL) e Daisaku Ikeda, filósofo e poeta. Os tópicos constantes do diálogo constituem questões de interesse pessoal de seus participantes, no caso Direitos Humanos. Assunto este discutido pelos seres humanos desde os remotos tempos. Daisaku Ikeda é um homem do extremo oriente; Austregésilo de Athayde representa o mundo ocidental. Quando do encontro entre ambos Athayde manifestou ter esperado sua vida toda por este encontro.


Palavras-chave: Direitos Humanos – Paz – Revolução Humana


Abstract
This article is being presented Daisaku Ikeda, religious leader, active practitioner of Buddhism Nichiren, Japanese sage who lived in the thirteenth century in Japan tireless fighter for Human Rights as well as the abolition of nuclear weapons, Ikeda inherits the spirit of his master, Josei Toda (1900 - 1958), who, after becoming the second president of the Soka Gakkai (1951), cast as a goal "to end the misery on earth." Ikeda advocates the theory of Human Revolution, or inner change, believing so to produce individuals and a society in which altruism is the dominant spirit, inner revolution is needed in the life of every person. In many of his writings is pointed out that the modern trend is to the aggregate of human beings turn to folly, ignorance of their rights, and the reckless pursuit of pleasure. Published dialogue with world figures covering various topics, Human Rights, Religion, Society, Philosophy, Astronomy, among others. This paper initially presents the dialogue between Austregésilo de Athayde, president of the Brazilian Academy of Letters (BAL) and Daisaku Ikeda, philosopher and poet. The topics contained in the dialogue are issues of personal interest of its participants, in the case of Human Rights. This issue discussed by humans since ancient times. Daisaku Ikeda is a man from the far east; Austregésilo de Athayde represents the western world. When the meeting between both expressed Athayde have expected his lifetime for this meeting.



Keywords: Human Rights - Peace - Human Revolution


Resumen
En este artículo se presenta Daisaku Ikeda, líder religioso, practicante activo del budismo de Nichiren, sabio japonés que vivió en el siglo XIII en Japón incansable luchador por los Derechos Humanos, así como la abolición de las armas nucleares, Ikeda hereda el espíritu de su maestro, Josei Toda (1900 - 1958), quien, tras convertirse en el segundo presidente de la Soka Gakkai (1951), elegido como un objetivo "poner fin a la miseria en la tierra." Ikeda aboga por la teoría de la revolución humana o cambio interior, creyendo así que para producir individuos y una sociedad en la que el altruismo es el espíritu dominante, es necesaria revolución interna en la vida de cada persona. En muchos de sus escritos se señaló que la tendencia moderna es el conjunto de los seres humanos a su vez a la locura, la ignorancia de sus derechos y la búsqueda temeraria de placer. Publicado diálogos con figuras mundiales que abarcan diversos temas, Derechos Humanos, Religión, Sociedad, Filosofía, Astronomía, entre otros. Este trabajo presenta inicialmente el diálogo entre Austregésilo de Athayde, presidente de la Academia Brasileña de Letras (ABL) y Daisaku Ikeda, filósofo y poeta. Los temas contenidos en el diálogo son los temas de interés personal de sus participantes, en el caso de los Derechos Humanos. Este tema discutido por los seres humanos desde tiempos remotos. Daisaku Ikeda es un hombre del lejano oriente; Austregésilo de Athayde representa el mundo occidental. Cuando el encuentro entre ambos Athayde expresado haber esperado toda su vida para esta reunión.



Palabras clave: Derechos Humanos - Paz - Revolución Humana



“Ambos almejamos, com toda a força dos nossos corações e mentes, que o dia de amanhã seja o da igualdade entre todos os homens e mulheres, sem distinção de qualquer natureza. Um amanhã em que possam desfrutar dessa igualdade sem receios, livres dos preconceitos, podendo alcançar a felicidade pessoal num mundo em que todos os credos com seus cultos sejam respeitados e as liberdades básicas asseguradas nos princípios básicos da Declaração Universal dos Direitos Humanos”.
(Austregésilo de Athayde)
Encontro de Gigantes
Sendo iniciado por “ambos” no fragmento citado acima se refere a duas personalidades importantes no assunto Direitos Humanos. Austregésilo de Athayde e Daisaku Ikeda. Ele, brasileiro, jornalista, presidiu a Academia Brasileira de Letras até sua morte em 1993, o outro, japonês, filósofo, economista, budista e Presidente da Soka Gakkai Internacional - SGI, esta uma das maiores organizações não governamentais das Nações Unidas, com mais de 13 milhões de associados em 192 países e territórios.
Além destes atributos podemos citar outros reconhecidos à Ikeda que são “poeta laureado” e “escritor”, com obras traduzidas para mais de vinte línguas. Ikeda ocupa a cadeira de número 14 da Academia Brasileira de Letras.
Entre seus esforços para corresponder com as Nações Unidas está o de apresentar anualmente, no dia 26 de janeiro, aniversário de fundação da SGI, sua Proposta de Paz. É comum se direcionar a SGI dizendo que esta é a fortaleza da paz e dos Direitos Humanos e que é um jardim de flores para a revitalização das pessoas.
É combatente feroz das armas nucleares. Almeja que as armas nucleares não sejam utilizadas em ataques reais, e que os processos de sua produção, testes e armazenamento afetam gravemente a vida dos seres humanos e do meio ambiente.
Em sua Proposta de Paz apresentada em 2012 Ikeda comenta
“A luta pela paz, assim como pelos direitos humanos e pela humanidade, não é aquela em que, atingido o pico da montanha, o objetivo final é conquistado. Pelo contrário, é um trabalho que gera um fluxo ininterrupto e imparável de comprometimentos interligados e que passa de uma geração a outra. Esta é a convicção que sustenta nossos esforços para ajudar a construir um futuro melhor para todos”. (IKEDA, 2012, p. 21)

Como um admirador dos esforços e empenho de Daisaku Ikeda por difundir um mundo de paz Athayde (2000, p. 59) tece os seguintes comentários sobre este nobre pensador oriental incluindo-o entre alguns próceres do humanismo:
“Certos homens merecem, por excelência, o destaque que indica a corrente perpétua dos que lutaram pelos direitos humanos: Nelson Mandela, Mahatma Gandhi e Martin Luther King. São pessoas a seguir como exemplos de devotamento e coragem, que assumiram historicamente a responsabilidade da luta pelos direitos humanos. A eles quero acrescentar o nome de Daisaku Ikeda”. (ATHAYDE, 2000, p. 59-60)

Em questão a este reconhecimento à pessoa da Daisaku Ikeda, que comumente recebe várias homenagens ao redor do mundo, nos remete aos comentários de Hannah Arendt (2008, p. 10) quando diz:
“a homenagem não só nos lembra enfaticamente a gratidão que devemos ao mundo; também nos obriga a isso num grau altíssimo. Visto sempre podermos recusar a homenagem, ao aceitá-la não só fortalecemos em nossa posição no mundo, como também aceitamos uma espécie de compromisso em relação a ele”. (ARENDT, 2008, p. 10)

Ao que Ikeda diz que está disposto a esforçar-se ainda mais para poder corresponder às expectativas. Diz ainda que não se pode ser feliz e se sentir seguro individualmente, ignorando a miséria e as ameaças que afligem os outros.
Vale aqui citar reconhecimento atribuído à Daisaku Ikeda pelo grande poeta brasileiro Thiago de Mello (2001) que em partes diz que “com Daisaku Ikeda aprendi que a cidadania mundial, o espírito de tolerância e o respeito aos direitos humanos são a base da religião que há de mudar o mundo – a religião que construirá a vida do novo milênio. Porque ele nos ensina que só vale a pena trabalhar pelo sonho que cabe dentro da vida”. (MELLO, 2001, p. 6)

A Evolução dos Direitos Fundamentais do Homem
Sendo aprovada como primeira resolução pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a proteção dos Direitos Humanos é o principal objetivo da Organização das Nações Unidas – ONU.
No livro Direitos Humanos no Século XXI, publicado no Brasil em 2000, trata-se de diálogo travado entre esses dois pensadores. Na apresentação Ikeda se refere a Athayde como “gigante na América do Sul” e Athayde dirige-se a Ikeda como “um profeta de alta inspiração de nossa atualidade”.
Diz ainda que
“Em nossos dias, Daisaku Ikeda é, sem dúvida, sem nenhuma intenção lisonjeira, um herdeiro de Aristóteles – o primeiro dos filósofos que deixou o plano do idealismo e passou a encarar os problemas com uma visão prática dos fenômenos naturais como se verifica em toda a sua grande obra”. (ATHAYDE, 2000, p. 17)

Referente à máxima do diálogo Vieira (2008, p. 142) resgata a importância dizendo que “já na Antiguidade clássica, nas bases estruturais do pensamento ocidental, Sócrates centrava a busca do conhecimento pelos diálogos, cuja matéria prima era o ato de perguntar”.
Em 1948, Austregésilo de Athayde participou, por ocasião da III Assembleia da Organização das Nações Unidas, da promulgação da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Sendo um dos delegados representantes do Brasil, Athayde colaborou ativamente da elaboração e da defesa desses direitos.
Por mais que sejamos pessimistas na evolução dos direitos fundamentais do homem, no diálogo travado entre esses dois gigantes é possível resgatar e resguardar uma majestosa condição de desenvolvimento, conforme podemos comprovar nas palavras “o ser humano caminhou para a igualdade combatendo a discriminação, aboliu a escravidão para conquistar a liberdade e está transformando o ódio em benevolência para finalmente abrir as portas para uma mudança”. (ATHAYDE, 2000, p. 11).
Em se tratando de Brasil, de fato, há muito a ser feito em defesa dos necessitados, quando o assunto são Direitos Humanos. Em 1986, a UNESCO edita a Declaração de Sevilha sobre a violência para refutar a ideia de que a violência humana é determinada biologicamente, desmente as visões de que os seres humanos teriam herdado a tendência para o comportamento violento, e que alguns diziam ser genético. Tema este tratado também por Ikeda (2013) em sua Proposta de Paz.
Esta situação está evidente no apontamento feito por Darcy Ribeiro (1995, p. 24) ao dizer que:
“Nesse plano, as relações de classes chegam a ser tão infranqueáveis que obliteram toda comunicação propriamente humana entre a massa do povo e a minoria privilegiada, que vê e a ignora, a trata e a maltrata, a explora e a deplora, como se esta fosse uma conduta natural”. (RIBEIRO, 1995, p. 24)

Em reconhecimento do resultado negativo que esta situação possa trazer ainda Darcy Ribeiro (1995, p. 25) afirma que “nessas condições de distanciamento social, a amargura provocada pela exacerbação do preconceito classista e pela consciência emergente da injustiça bem pode eclodir, amanhã, em convulsões anárquicas que conflagrem toda a sociedade”.
Aqui vale relembrar comentário feito por Lynn Hunt (2009, p. 17) que é autorreflexivo em questão da compreensão quanto à importância dos Direitos Humanos, como segue:
“Não devemos esquecer as restrições impostas aos direitos pelos homens do século XVIII, mas parar por aí, dando palmadinhas nas costas pelo nosso próprio “avanço” comparativo, é não compreender o principal. Como é que esses homens, vivendo em sociedades construídas sobre a escravidão, a subordinação e a subserviência aparentemente natural, chegaram a imaginar homens nada parecidos com eles, e em alguns casos também mulheres, como iguais? Como é que a igualdade de direitos se tornou uma verdade “autoevidente” em lugares tão improváveis? É espantoso que homens como Jefferson, um senhor de escravos, e Lafayette, um aristocrata, pudessem falar dessa forma dos direitos autoevidentes e inalienáveis de todos os homens. Se pudéssemos compreender como isso veio a acontecer, compreenderíamos melhor o que os direitos humanos significam para nós hoje em dia”. (HUNT, 2009, p. 17)

Em introdução de A Afirmação Histórica dos Direitos Humanos, Comparato (2013, pg. 13) resgata de forma espetacular a história dos Direitos Humanos dizendo:
“a revelação de que todos os seres humanos, apesar das inúmeras diferenças biológicas e culturais que os distinguem entre si, merecem igual respeito, como únicos entes do mundo capazes de amar, descobrir a verdade e criar a beleza. É o reconhecimento universal de que, em razão dessa radical igualdade, ninguém – nenhum indivíduo, gênero, etnia, classe social, grupo religioso ou nação – pode afirmar-se superior aos demais”. (COMPARATO, 2013, p. 13)

Sendo um budista, Ikeda estimula a evolução da Humanidade e a criação de uma sociedade voltada para os Direitos Humanos, o que concorda também com as palavras de Comparato (2013, p. 16) quando diz que “a justificativa científica da dignidade humana sobrevejo com a descoberta do processo de evolução dos seres vivos”.
Como um pacifista Ikeda defende que a Declaração Universal dos Direitos Humanos não seja considerada como um conto de fadas. Para ele os Direitos Humanos são um tema básico que merece prioridade em tudo. Afirma que sem esses direitos não há como criar a paz nem estabelecer a felicidade. Dessa forma “é possível que o conceito de Direitos Humanos, que é a convicção da humanidade dotada de valor universal, venha a tornar-se o foco das atenções”. (IKEDA, 2010, p. 266)

A Revolução Humana
Para Ikeda a chave para a paz mundial está na mente humana. Muda-se o coração e a realidade exterior acompanha essa mudança. A teoria que defende é a da “Revolução Humana”. Conforme o líder da Soka Gakkai Internacional a Revolução Humana de cada indivíduo é um magnífico esforço para transformar o destino da humanidade. Ou seja, o ponto primordial da paz encontra-se no próprio ser humano.
Ainda citando Ikeda (1981, p. 191), quanto à importância da mudança interior, ou Revolução Humana de cada um, é afirmado que em questão da crise existente na sociedade se justifica da seguinte forma:
“... a crise da civilização contemporânea inicia-se bem no fundo de cada um de nós. Pode-se citar todos os tipos de razões políticas e sociais para o desenvolvimento de movimentos extremistas – fascismo, por exemplo – mas, na análise final, o fascismo é uma manifestação de desejos não reprimidos que é o demônio na vida das pessoas que são controladas pelo ego e pelo orgulho”. (IKEDA, 1981, p. 191)

Isto faz-nos entender que “seres humanos somente poderão mudar quando vencerem sua escuridão interior e resgatarem a dignidade eterna que possuem na própria vida”. (IKEDA, 2009, p. 23) O desbravar do ilimitado “poder da vida” inerente aos seres humanos transformará o “século de guerras” em “século de paz” – eis a “Revolução Humana”.
Em outro diálogo publicado entre Ikeda e Arnold Toynbee (1889 – 1975), famoso historiador britânico, intitulado de Escolha a Vida, em concordância entre ambos, Ikeda (1995) diz que “o coração humano, porém, invariavelmente abriga o ganancioso desejo de estabilizar e expandir os direitos e privilégios individuais, mesmo que a expensas dos seus semelhantes”. (IKEDA, 1995, p. 208)
Assim, Ikeda (1995, p. 212) ressalta que, melancolicamente, devemos admitir que é uma característica muito humana ser extremamente sensível à própria dor e sobremodo insensível à dor alheia. Concordando Toynbee (1995, p. 217) comenta que “o autodomínio é o único caminho para a felicidade, seja do indivíduo, seja de toda a humanidade”.
A filosofia da Revolução Humana defendida por Ikeda tem o significado traduzido em elevar o estado de vida, fazer a mudança interior. Sem a Revolução Humana, por mais que alguém acumule conquistas, seja na saúde, no amor ou no plano financeiro, continua o mesmo. “A mudança individual transforma o lar, a comunidade, a sociedade, o curso da história e o próprio mundo”. (IKEDA, 2013, p. 33)
Diz ainda que Revolução Humana não é virar um super-homem, é tornar-se um ser humano melhor, e complementa dizendo “o mundo jamais vai melhorar enquanto as pessoas – que são a força propulsora e o ímpeto de todos os empreendimentos – forem egoístas e insensíveis”. (IKEDA, 2013, p. 33)
Outra figura importante no mundo da astronomia que travou diálogo com Ikeda foi Ronaldo Rogério de Freitas Mourão (2009) que em parte tece comentário pertinente à teoria da Revolução Humana da seguinte forma: “A Revolução Humana de um único indivíduo promoverá a mudança na sua família, na sociedade em que vive e até no mundo inteiro. Partilho totalmente, ou melhor, comungo de modo ímpar com essa ideia”. (MOURÃO, 2009, p. 123)
A teoria da Revolução Humana contraria o dito popular que diz que “pau que nasce torto, morre torto”. Para maior entendimento vale citar trecho do romance Grande Sertão: Veredas de João Guimarães Rosa (2006), onde no início é descrito uma situação, pela personagem principal, relatando a transformação da “mandioca mansa” e da “mandioca brava” que ilustra perfeitamente o significado da Revolução Humana:
“... pois, num chão, e com igual formato de ramos e folhas, não dá a mandioca mansa, que se come comum, e a mandioca-brava, que mata? Agora, o senhor já viu um estranhez? A mandioca doce pode de repente virar azangada – motivos não sei; às vezes se diz que é por replantada no terreno sempre, com mudas seguidas, de manaíbas – vai em amargando, de tanto em tanto, de si mesma toma peçonhas. E, ora veja: a outra, a mandioca-brava, também é que às vezes pode ficar mansa, a esmo, de se comer sem nenhum mal”. (ROSA, 2006, p. 11)

Em meio a seus escritos Ikeda ficou conhecido por sua célebre frase que diz: “Seja como for, a grandiosa Revolução Humana de uma única pessoa impulsionará a mudança total do destino de um país, além disto, será capaz de transformar o destino de toda a humanidade”. (IKEDA, 2012, p. 34) Assim, o caminho da Revolução Humana encontra-se no ato de aprimorar-se a si próprio hoje mais do que ontem, amanhã mais do que hoje.

Luta contra a Discriminação
Para combater a injusta discriminação é necessário mudar o coração das pessoas. E para isto é importante uma reforma na vida dos seres humanos para transformar seu egoísmo que legitima o domínio sobre os outros, em humanismo pela coexistência pacífica. Ou seja, conforme defende Ikeda (1994, p. 116), não há outra solução a não ser por meio da Revolução Humana.
Defendendo o humanismo aplicado no Budismo Ikeda (2013, p. 36) comenta:
“O Budismo defende a dignidade da vida e revela a grandeza cósmica do ser humano. Não é uma religião de cerimônias, de práticas religiosas afastadas da realidade social. Também não se limita a oferecer explicações teóricas. Vai muito além. Estimula e dá meios concretos para cada pessoa, da forma como é, transformar a própria vida neste momento. O Budismo é a “religião da revolução humana”. (IKEDA, 2013, p. 36)

Combatendo a descriminação Ikeda (2000, p. 58) se utiliza de princípios budistas para analisar a profundeza em que predomina o apego ao ego que é chamado de consciência mano. Que nada mais é do que a coexistência dos quatro desejos mundanos que são: ignorância, preconceito, arrogância e amor-próprio.
Mais detalhadamente Ikeda (2000, p. 58) expõe estes princípios da seguinte forma:
“A ignorância refere-se à condição em que uma pessoa se fecha no pequeno mundo do seu ego perdendo completamente o sentido de relacionar-se francamente com outras pessoas abrindo o seu coração.
O preconceito é ter a ilusão de que esse ego fechado no seu pequeno mundo é propriamente o verdadeiro eu, e permanece apegado a ideias distorcidas, além de comparar a si próprio com os outros.
A arrogância é, mediante essa comparação, incorrer no sentimento de que é superior, igual ou não tão inferior aos outros. A arrogância sempre se caracteriza pela inveja e ambição de poder, domínio e riqueza, e leva as pessoas a perder o conceito de justiça e a cometer erros.
O amor-próprio é o apego encoberto por esses desejos mundanos. O amor aqui referido é a avidez pelo amor, é o amor-desejo, e indica todas as espécies de ambições miseráveis empregadas para a proteção de um ego menor”.  (IKEDA, 2000, p. 58)

Assim, é afirmado no Budismo que o sentimento de discriminação de raça, etnia, cultura e religião surgem desses quatro desejos mundanos. Ainda diz que o Budismo explica que a “escuridão fundamental da vida” é a origem primária desses impulsos negativos, como ira, avareza e estupidez, raízes venenosas da guerra e de outras calamidades.
Em questão a filosofia oriental Athayde (2000, p. 59) reconhece a importância do Budismo ao dizer “o Budismo se baseia, sem ser cerceado por nada, em um princípio comum a todos os homens – a justiça”. É perceptível o interesse a remoção de injustiças evidentes no mundo.
De acordo com esta questão Ikeda (2000, p. 59) vê “na sabedoria do Budismo uma grande possibilidade de evitar os conflitos que encobrem o nosso mundo motivado pela discriminação e de construir um futuro de convivência pacífica da raça humana”.
Assim, podemos perceber a importância de se manter o espírito de justiça e contestar o comportamento arrogante das pessoas. Tratando-se do tema “justiça” a razão deve prevalecer, conforme comenta Sen (2011, p. 35), Nobel em Economia, dizendo que “os requisitos de uma teoria da justiça incluem fazer com que a razão influencie o diagnóstico da justiça e da injustiça”.
Em Para Compreender a Ciência organizada por Andery (2003), já no capítulo 1 é comentado sobre “Os Trabalhos” de Hesíodo, escrito no ano VII a. C. em que aborda a concepção de Justiça da seguinte forma:
“Enquanto entre animais imperava o direito do mais forte, assumia que entre os homens imperava o direito de justiça. Para Hesíodo, essa era a distinção fundamental que marcava os homens e que devia ser buscada. O direito que assegurava a justiça era de todos os homens e, associado ao trabalho, os trazia de volta a uma ordem natural na qual era possível encontrar uma vida satisfatória e virtuosa”. (ANDERY, 2003, p. 28)

Assim, podemos dizer que a construção de uma sociedade real de paz e democracia, conforme Ikeda (1994, p. 28) defende, “não é conseguida por meio do radicalismo nem com uma revolução destrutiva”, e sim que “só pode ser concretizada pela ‘revolução da esperança’”, ou seja, pela “revolução humana que cultiva o grande solo da vida de cada ser humano”.
Em questão a educação em direitos humanos Ikeda (2000, p. 54) defende que é o meio para oferecer aos homens a mais perfeita formação como seres humanos. Diz ainda que “a educação é a força básica que constrói o futuro de cem ou duzentos anos”.

Conclusões
Neste ano em que se comemora os sessenta e cinco anos da Declaração, é um momento oportuno para reflexões do quanto as pessoas devem valorizar a vida, bem como a dignidade humana. Este grande líder, Daisaku Ikeda, que herdou diretamente de seu mestre, Jossei Toda, então segundo presidente da Soka Gakkai, promoveu uma grande batalha que consistia em erigir a fortaleza da paz no coração das pessoas extirpando as garras demoníacas que habitam a vida humana.
Confirmando o que Ikeda (2010) propõe só nos faz conscientizar que a urgência, neste momento, seria uma revolução consciente de uma humanidade que desperte conceito de Direitos Humanos em cada pessoa. Trata-se de uma revolução dentro do coração de cada um.
Nos ajuda a resgatar a convicção de que este é o momento para construir uma era de resplendor e glória da humanidade, focalizando, assim, a dignidade da vida. Precisamos nos empenhar na campanha por uma revolução interior, na qual todos participem e que contribuam com a paz e sejam capazes de mudarem o próprio indivíduo, para melhor.
Dessa forma só temos a concordar que o conceito de Revolução Humana, quando se atinge o âmago do ser humano, que é o sujeito da criatividade, transforma-se, a sociedade e o meio ambiente também alcançarão uma ampla reforma.
As violações e os abusos dos Direitos Humanos são uma trágica realidade em todos os lugares. Assim, conforme Ikeda (2013) aponta sua Proposta de Paz “para a criação de uma sociedade que respeite a vida, o sentimento de valor insubstituível de cada indivíduo deve desabrochar no coração de todos”.
Aqui no Brasil, a questão dos Direitos Humanos, é um processo contínuo que deriva já de sua descoberta. Sua dificuldade de aplicação na sociedade vem de tempos remotos conforme podemos perceber nas palavras de Darcy Ribeiro (1995) em O Povo Brasileiro quando diz que “subjacente à uniformidade cultural brasileira, esconde-se uma profunda distância social, gerada pelo tipo de estratificação que o próprio processo de formação nacional produziu”.
Conforme as próprias palavras de Ikeda (1994) em seu romance intitulado Nova Revolução Humana, no capítulo 1, Alvorecer, ele comenta que “não existe nada tão sublime quanto a paz. Não há nada mais feliz do que a paz. Paz – eis o primeiro passo fundamental no propósito do avanço da humanidade”.




Referências Bibliográficas
Livros
ANDERY, Maria Amália Pei Abib. Para compreender a ciência: uma perspectiva histórica. 12ª edição São Paulo: Educ, 2003. 436 p. Rio de Janeiro: Garamond.
ARENDT, Hannah. Homens em tempos sombrios. São Paulo: Companhia das Letras, 2008. 315 p.
ATHAYDE, Austregésilo de; IKEDA, Daisaku. Diálogo: direitos humanos no Século XXI. 1ª edição Rio de Janeiro: Record, 2000. 276 p.
COMPARATO, Fábio Konder. A afirmação histórica dos direitos humanos. 8ª Edição São Paulo: Saraiva, 2013. 598 p.
HUNT, Lynn. A invenção dos direitos humanos: uma história. 1ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. 285 p. Tradução Rosaura Eichenberg.
IKEDA, Daisaku. Nova Revolução Humana. Volume 1. 1ª edição. São Paulo: Brasil Seikyo, 1994. 227 p.
______, Daisaku. Desafio de uma Nova Era: Paz. 1ª edição São Paulo: Brasil Seikyo, 2001. 208 p. Tradução, preparação e revisão Equipe Brasil Seikyo.
______, Daisaku. Sobre atingir o estado de buda nesta existência. 1ª edição São Paulo: Brasil Seikyo, 2009. 108 p. Tradução Elizabeth Miyashiro.
______, Daisaku. Uma paz duradoura. 1ª edição Rio de Janeiro: Record, 1981. 283 p. Volume 1; tradução de Astrid de Figueiredo.
______, Daisaku. Nova Revolução Humana. Volume 1. 1ª edição. São Paulo: Brasil Seikyo, 1994. 227 páginas.
______, Daisaku. Nova Revolução Humana. Volume 2. 1ª edição. São Paulo: Brasil Seikyo, 1994. 218 páginas.
MOURÃO, Ronaldo Rogério de Freitas; IKEDA, Daisaku. Astronomia e Budismo: Uma jornada rumo ao distante universo. 1ª edição São Paulo: Brasil Seikyo, 2009. 190 p. Tradução: Getulino Kiyoshi Nakajima.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro: a formação e o sentido do Brasil. 2ª edição São Paulo: Companhia Das Letras, 1995. 476 p.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. 1ª edição Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006. Biblioteca do Estudante.
SEN, Amartya. A ideia de justiça. 1ª edição São Paulo: Companhia das Letras, 2011. 492 p. Tradução Denise Bottmann, Ricardo Doninelli Mendes.
TOYNBEE, Arnold; IKEDA, Daisaku. Escolha a vida: um diálogo sobre o futuro. 3ª edição Rio de Janeiro: Record, 1995. 346 p. Tradução de: Ruy Jungmann - Choose life.
WICKRAMASINGHE, Chandra; IKEDA, Daisaku. Espaço e vida eterna: um diálogo entre Chandra Wickramasinghe e Daisaku Ikeda. 1ª edição São Paulo: Brasil Seikyo, 2010. 278 p. Londrina, PR: Eduel - Editora da Universidade Estadual de Londrina.

Teses
VIEIRA, Cleber Santos. Entre as coisas do mundo e o mundo dos livros: prefácios cívicos e impressos escolares no Brasil Republicano. 2008. 287 f. Tese (Doutor) - Curso de Educação, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2008.

Revistas
TERCEIRA CIVILIZAÇÃO: Revolução Humana. São Paulo: Brasil Seikyo, n. 523, mar. 2012. Mensal.
TERCEIRA CIVILIZAÇÃO: A paz mundial começa na sua mente. São Paulo: Brasil Seikyo, n. 524, abr. 2012. Mensal.
TERCEIRA CIVILIZAÇÃO: Levantar-se só. São Paulo: Brasil Seikyo, n. 536, abr. 2013. Mensal.
TERCEIRA CIVILIZAÇÃO: Por uma era de paz e humanismo. São Paulo: Brasil Seikyo, n. 537, maio 2013. Mensal. Proposta de Paz do Presidente Ikeda: Compaixão, Sabedoria e Coragem Para A Humanidade Viver em Paz.

Jornais
JORNAL BRASIL SEIKYO: Defendam a Justiça de mãos dadas com as pessoas. São Paulo, 11 set. 2004.
JORNAL BRASIL SEIKYO: Nova revolução humana. São Paulo: Brasil Seikyo, n. 2178, 04 maio 2013. Semanal.



[1] Mestrando em Educação e Saúde na Infância e Adolescência na Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP.

sábado, 13 de julho de 2013

Marcos Roberto dos Santos[1]

Para descrever essas práticas cotidianas que produzem sem capitalizar, isto é, sem dominar o tempo, impunha-se um ponto de partida por ser o foco exorbitado da cultura contemporânea e de seu consumo: a leitura. Da televisão ao jornal, da publicidade a todas as epifanias mercadológicas, a nossa sociedade canceriza a vista, mede toda a realidade por sua capacidade de mostrar ou de se mostrar e transforma as comunicações em viagens do olhar. É uma epopeia do olho e da pulsão de ler. (CERTEAU, 2012, p. 47)

Sendo um texto de pesquisa positiva o livro “A Invenção do Cotidiano: arte de fazer” Michel de Certeau (2012) apresenta um raciocínio rigoroso onde compreende o desenvolvimento da ação cotidiana. Compondo-se de alguns relatos há a pretensão de narrar práticas comuns. Dedicado ao “homem ordinário”, que é tratado como um herói comum, “ordinário” este no sentido de habitual.
Tendo como objeto de pesquisa o “livro”, como em meu caso, é sempre interessante ter como base, que reforce a bibliografia, autores consagrados como Michel de Certeau, Roger Chartier, Michel Foucault, entre outros que sejam pertinentes ao tema. A proposta de minha pesquisa é olhar para o “livro”, enquanto objeto físico, investigando qual papel/função ele ocuparia na relação entre o leitor e a leitura e sua apropriação da teoria pedagógica, do professor oriental Tsunessaburo Makiguti (1871 – 1944), na sociedade brasileira, diretamente envolvida na construção de um sentido voltado para a educação humanista.
Conforme Chartier (1999)
“O livro sempre visou instaurar uma ordem; fosse a ordem de sua decifração, a ordem no interior da qual ele dever ser compreendido ou, ainda, a ordem desejada pela autoridade que o encomendou ou permitiu a sua publicação”. (CHARTIER, 1999, p. 8)

Para Certeau (2012) “o discurso normativo só “anda” se já houver tornado um relato, isto é, uma lei historiada e historicizada, narrada por corpos”. Ainda complementa dizendo que “uma credibilidade do discurso é em primeiro lugar aquilo que faz os crentes se moverem. Ela produz praticantes. Fazer crer é fazer fazer”. (CERTEAU, 2012, p. 219, 220)
Surgindo assim, que na verdade é o que será investigado, uma cultura e uma representação, vale abordar aqui “A História Cultural: entre práticas e representações” de Roger Chartier (2002) ao dizer que “as representações do mundo social, (...) embora aspirem à universalidade de um diagnóstico fundado na razão, são sempre determinadas pelos interesses de grupo que as forjam”. (CHARTIER, 2002, p. 17)
Para Chartier (2002) as representações “ela é um dos conceitos mais importantes utilizados pelos homens do Antigo Regime, quando pretendem compreender o funcionamento da sua sociedade ou definir as operações intelectuais que lhes permitem apreender o mundo”. (CHARTIER, 2002, p. 23) As práticas de leitura dizem respeito aos espaços do individual e do social; e que o ato de ler resulta de tensões estabelecidas entre leitores e comunidades de interpretação, assim como dos textos e sua materialidade.
Ainda citando Chartier (1999) quanto ao acesso ao impresso:
“não mais nas sociedades do Antigo Regime do que na nossa, o acesso ao impresso não pode ser reduzido à exclusiva posse do livro: nem todo livro é necessariamente possuído, e nem todo impresso mantido no foro é necessariamente um livro”. (CHARTIER, 1999, p. 24)

Em sua obra “Educação para uma Vida Criativa”, meu objeto de pesquisa, de Tsunessaburo Makiguti, publicado no Brasil em 1994, nos brinda dizendo que a meta da educação deve ser buscar o entendimento do significado e a finalidade da vida e, além disto, a maneira correta de viver.
A ideia da apropriação é entender se a leitura desta obra, bem como a aplicação de sua teoria pedagógica, é introduzida com passividade ou como uma “arte”, conforme comenta também Certeau (2012).
Esta “arte” Certeau (2012) comenta dizendo:
“A esta arte de leitores conviria comparar outras. Por exemplo, a arte de conversar: as retóricas da conversa ordinária são práticas transformadoras “de situações de palavra”, de produções verbais onde o entrelaçamento das posições locutoras instaura um tecido oral sem proprietários individuais, as criações de uma comunicação que não pertence a ninguém”. (CERTEAU, 2012, p. 49)

Assim, saber como os consumidores, ou mesmo os leitores, se apropriam desta obra de Tsunessaburo Makiguti na sociedade brasileira é a base de minha pesquisa propriamente dita. Ainda citando Certeau (2012) é dito que “o sistema escriturístico anda automovelmente; ele se torna auto-móvel e tecnocrático”. (CERTEAU, 2012, p. 206)
Conforme Chartier (2002) “a apropriação, tal como a entendemos, tem por objectivo uma história social das interpretações, remetidas para as suas determinações fundamentais (que são sociais, institucionais, culturais) e inscritas nas práticas específicas que as produzem”. (CHARTIER, 2002, p. 26)
Segundo, ainda Chartier (1999) “as variações das modalidades mais formais de apresentação dos textos puderam, então, modificá-los, assim como mudaram os seus registros de referência e suas maneiras de interpretação”. (CHARTIER, 1999, p. 18)
As formas que são empregadas, as maneiras de pensar investidas em maneiras de fazer constituem um caso estranho – e maciço – das relações que tais práticas mantêm com teorias, tudo conforme dito pelo próprio Certeau (2012) modos de emprego, maneiras de fazer, maneiras de utilizar, ou mesmo reempregadas, “se multiplicam com a extensão dos fenômenos de aculturação, ou seja, com os deslocamentos que substituem maneiras e “métodos” de transitar pela identificação com o lugar”. (CERTEAU, 2012, p. 87)
De acordo com Chartier (1999)
“a transformação das formas e dos dispositivos através dos quais um texto é proposto pode criar novos públicos e novos usos; por outro lado, a partilha dos mesmos objetos por toda uma sociedade suscita a busca de novas diferenças, aptas a sublinhar as distâncias existentes”. (CHARTIER, 1999, p. 22)
Ainda de acordo com Chartier (2002)
“Do mesmo modo que as modalidades das práticas, dos gostos e das opiniões são mais distintivas do que essas obras, as maneiras como um indivíduo ou um grupo se apropria de um motivo intelectual ou de uma forma cultural são mais importantes do que a distribuição estatística desse motivo ou dessa forma”. (CHARTIER, 2002, p. 51)

Conforme Certeau (2012) diz que “as coisas que entram na página são sinais de uma “passividade” de sujeito em face de uma tradição; aqueles que saírem dela são as marcas do seu poder de fabricar objetos”. (CERTEAU, 2012, p. 205) Somando-se a isto podemos citar Chartier (1999) quando diz que “produzidas em uma ordem específica, que tem as suas regras, suas convenções e suas hierarquias, as obras escapam e ganham densidades, peregrinando, às vezes na mais longa jornada, através do mundo social”. (CHARTIER, 1999, p. 9)
Em partes Certeau (2012) comenta que “para ler e escrever a cultura ordinária, é mister reaprender operações comuns e fazer da análise uma variante de seu objeto”. (CERTEAU, 2012, p. 35)
Em A Arte de Ler ou como resistir à adversidade, de Michèle Petit (2009) é comentado que:
“é delicado determinar status da palavra em determinado grupo cultural, em determinada categoria social. Sem dúvida, a necessidade de sentido, de narrativas, o desejo de dar forma à experiência são universais. Entretanto, de um contexto a outro e dependendo da época, não apenas as relações entre o oral e o escrito, as representações do livro e as proibições relativas a esse objeto variam, mas também as formas da narratividade, as funções da palavra e do silêncio tampouco são as mesmas”. (PETIT, 2009, p. 133)

Para Chartier (1999) “o essencial é compreender como os mesmos textos poder ser diversamente apreendidos, manejados e compreendidos”. (CHARTIER, 1999, p. 16) Quando se põe no papel e expõem as ideias, e quando se publicam e exibem suas obras, estudiosos, escritores partilham seus pensamentos e intenções com seus semelhantes, e dessa maneira influenciam a sociedade e a política.
Assim, este mesmo autor comenta que “com efeito, cada forma, cada suporte, cada estrutura da transmissão e da recepção da escrita afeta profundamente os seus possíveis usos e interpretações”. (CHATIER, 1999, p. 105)


Referências bibliográficas
CERTEAU, Michel de. A Invenção do Cotidiano: Artes de fazer. 19. ed. Tradução de Ephraim Ferreira Alves. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.
CHARTIER, Roger. A Ordem dos Livros: leitores, autores e bibliotecas na Europa entre os séculos XIV e XVIII. Tradução de Mary Del Priori. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1999. 111p.
CHARTIER, Roger. A História Cultural: entre práticas e representações. 2ª ed. Tradução de Maria Manuela Galhardo. Algés, Portugal: DIFEL, 2002.
MAKIGUTI, Tsunessaburo. Educação para uma vida criativa: ideias e propostas de Tsunessaburo Makiguti. Tradução de Eliane Carpenter. 2ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1994.
MATRIZES. Revista do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação da Universidade de São Paulo. Ano 5, nº 2 (jan./jun. 2012). São Paulo: ECA/USP/: 2012. 304p. 25 cm.
PETIT, Michèle. A arte de ler ou como resistir à adversidade. Tradução de Arthur Bueno e Camila Boldrini. São Paulo: Ed. 34, 2009. 304p.



[1] Mestrando em Educação e Saúde na Infância e Adolescência - Trabalho apresentado à disciplina Estudos sobre Cultura Escolar da Universidade Federal de São Paulo – UNIFESP.

sábado, 22 de dezembro de 2012

NÃO DESPREZEM A EDUCAÇÃO...


Não desprezem a Educação
by Marcos Roberto

A educação é a causa básica para o crescimento de uma nação. Por meio da educação muitas pessoas desenvolverão a capacidade de discernir o bem do mal; sendo educadores é dever de todos, família, professores, auxiliar a preservar os tesouros da educação. Nisto se consiste os esforços para se pavimentar o caminho exato da educação.
Acreditando que a grandeza da educação encontra-se no fato de que se possa conduzir ao caminho da vida futura, de modo que todas as pessoas, sem exceção, possam seguir. Não é um caminho que somente um limitado número de pessoas possa seguir. Dedicar ativamente nossa vida a educação e trabalhar para beneficiar outros é como escalar uma íngreme montanha.
Educação é um grande movimento da humanidade no nível mais fundamental. Infelizmente grande parte dos educadores, para não se dizer todos, são controlados pelo dinheiro. Tomando as palavras de Ikeda  como base podemos dizer que o dinheiro deixa as pessoas loucas; ele possui uma natureza maligna que corrói e destrói o coração do ser humano. Ainda podemos dizer que ser controlado pelo dinheiro é algo miserável. Não podemos perder o espírito de amar a humanidade, bem como de prezar a educação. Ensinar somente assuntos econômicos produz pessoas que são espiritualmente pobres.
Permitindo que seja desprezada a educação estamos falhando em favorecer a injustiça, estamos também nos desviando de nosso caminho como seres humanos. O mundo está em busca de uma educação que sustente o humanismo e que equipare a sua supremacia ao comportamento humano. E, lembremos sempre, para o melhor ou para o pior, o mais importante são as pessoas.
A educação humanista é a chave. A base da educação humanista se encontra na determinação de amar as pessoas como se fossem seus filhos.
Não podemos deixar que menosprezem a educação; aqueles que menosprezam a educação é porque seu coração é desprezível, seu próprio interior mesquinho não lhes permite respeitar os outros.
Sábias palavras as de Ikeda  quando diz que “as escolas são na verdade locais de aprendizado, onde se formam a personalidade e o caráter. Menosprezar seu verdadeiro propósito e transformá-la em locais de portas abertas para os insultos e a violência é algo terrível. Isso nada mais é que o reflexo do estado de Animalidade”. Que palavras verdadeiras para os dias de hoje!
Nós, educadores, só conseguiremos persuadir os outros quando nós próprios formos bons exemplos. A educação consiste em sermos um modelo positivo; se, os educadores, dessem bons exemplos com certeza o país estaria bem melhor. Outro ponto que se soma a isto é mudar a si próprio primeiro e, com essa transformação, mudar o coração dos outros. Goethe disse que somente com ações positivas podemos superar o que é desagradável.
Os verdadeiros educadores consideram seus alunos como mais importantes que seus próprios filhos, que sua própria família. É crucial dedicarmos toda nossa energia à educação, que ilumina as pessoas e as tona sábias, também é o que nos diz Ikeda.
Devemos ter em mente que a educação humanista é a suprema arte e a mais sagrada das profissões. Pois, possibilita que o tesouro de nossa própria vida e da vida das outras pessoas brilhe criando ilimitado valor. E, para se atingir isto, tudo que temos a fazer é nos levantar com a cabeça erguida, com confiança e convicção.

quinta-feira, 14 de junho de 2012


PENSAR SOBRE JUSTIÇA

Marcos Roberto dos Santos[1]


“... a pobreza não é um vício, evidentemente! Sei também que a embriaguez não é uma virtude, o que é para lastimar! Mas a indigência, a indigência é um vício. Na pobreza conserva-se ainda um pouco da dignidade natural dos nossos sentimentos; na indigência não se conserva nada. O indigente nem sequer é expulso a pancadas da sociedade humana; é expulso a vassouradas, o que é muito mais humilhante!”
(Crime e Castigo – Dostoiévski)


O início deste artigo traz o fragmento da grande obra de Dostoiévski, Crime e Castigo, clássico da literatura universal. O fato se dá quando do encontro de duas personagens (Marmieládov e Raskólnikov) em uma taberna. Enquanto conversam e ingerem bebida Marmieládov lamenta-se de sua situação de pobreza. Durante conversa comenta que sua filha se prostitui para ajudar financeiramente em casa - na história a filha tem apenas 16 anos.
Como podemos perceber devido a uma situação de “privação” sua filha está disposta de alguma forma a colaborar com o bem-estar da família. Durante a leitura podemos perceber que a pobreza é tanta que chega a causar desarmonia em seu lar.
No mundo todo 1 bilhão de pessoas sofre com fome crônica. Quantas destas pessoas não se sujeitam a todos os tipos de ofícios para que não vejam sua família em situação deplorável.
Thomas Paine foi uma pessoa de “grande espírito humanitário”, destes que iluminam com rara intensidade a época em que nascem. Viu claramente que “grande parte da humanidade, naquilo que se chama de países civilizados, vive em estado de pobreza e desgraça”. Atribuiu aos governos opressores esse “quadro revoltante da desgraça humana” e afirmou ainda que “a verdadeira grandeza de uma nação se funda nos princípios de humanidade”.
O Prêmio Nobel de Economia em 1998, Amartya Sen, também cita uma experiência sua de infância no livro Desenvolvimento como Liberdade se recordando da seguinte forma:
“Eu tinha uns dez anos. Certa tarde estava brincando no jardim de minha casa na cidade de Dhaka, hoje capital de Bangladesh, quando um homem entrou pelo portão gritando desesperadamente e sangrando muito. Fora esfaqueado nas costas. Era a época em que hindus e muçulmanos matavam-se nos conflitos grupais que precederam a independência e a divisão de Índia e Paquistão. Kader Mia, o homem esfaqueado, era um trabalhador diarista muçulmano que viera fazer serviço em uma casa vizinha – por um pagamento ínfimo – e fora esfaqueado na rua por alguns desordeiros da comunidade hindu majoritária naquela região. Enquanto eu lhe dava água e ao mesmo tempo gritava pedindo ajuda aos adultos da casa – e momentos depois, enquanto meu pai o levava às pressas para o hospital -, Kader Mia não parava de nos contar que sua esposa lhe dissera para não entrar em uma área hostil naquela época tão conturbada. Mas Kader Mia precisava sai em busca de trabalho e um pouco de dinheiro porque sua família não tinha o que comer. A penalidade por essa “privação” de liberdade econômica acabou sendo a morte, que ocorreu mais tarde no hospital.” (SEN. 2010, p. 22)
Kader Mia não precisaria ter entrado em uma área hostil em busca de uns míseros trocados naquela época terrível se sua família tivesse condições de sobreviver de outra forma.
Conforme SEN (ibidem) a privação de liberdade econômica pode gerar a privação de liberdade social, assim como a privação de liberdade social ou política pode, da mesma forma, gerar a privação de liberdade econômica.
SACHS (2005, p. 265) diz que o fim da pobreza exigirá uma rede global de cooperação entre pessoas que nunca se encontraram e que não necessariamente confiam umas nas outras. Com oportunidades sociais adequadas, os indivíduos podem efetivamente moldar seu próprio destino e ajudar uns aos outros.
Estamos em momento de debates pelo encontro de representantes de países pela Rio +20 que acontece no Rio de Janeiro. A convenção tem como temas centrais Economia Verde e Governança Global, entre outros assuntos temos também energia, alimentação e agricultura; emprego e inclusão; cidades sustentáveis; água; oceanos e desastres naturais. De tudo isto se deduz que tem como bem maior a felicidade dos seres humanos. Esperamos resultados positivos.
Em sua Proposta de Paz de 2012 – que encaminha anualmente à ONU – IKEDA (2012, p. 49) é enfático ao dizer que “é indispensável que a formulação das metas considere cuidadosamente questões como a pobreza, a indigência e as desigualdades das condições da vida”.
No Painel de Alto Nível do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre Sustentabilidade Global (2012) é um relatório encaminhado à ONU que em parte diz: “O mundo ainda não está no caminho. Já houve progresso, mas ele não tem sido nem rápido nem profundo o suficiente e a necessidade de uma ação de maior alcance está se tornando cada vez mais urgente”.
O relatório aponta visões de longo prazo que são: erradicar a pobreza; reduzir a desigualdade e fazer que o crescimento seja inclusivo e a produção e o consumo sejam mais sustentáveis.
Em encontro recente (dia 17 de maio de 2012) de cúpulas da ONU em Nova York, o Secretário-Geral da ONU Ban Ki-Moon, fez comentário dizendo o seguinte: “a verdade é que eu estou decepcionado com as negociações. Elas não estão se movendo rápido o suficiente”.
Ainda sobre isso IKEDA, no jornal diário Seikyo Shimbun do dia 26 de junho de 2010 bradou: “a prosperidade da sociedade somente é possível quando proporcionamos proteção, incentivo e força às pessoas”.
Assim, somente podemos pensar em “justiça” quando temos como metas três ideias básicas, de acordo com SANDEL (2012): aumentar o bem-estar; respeitar a liberdade e promover a virtude.
BEM-ESTAR: satisfação com a vida – auto-aceitação; controle sobre o ambiente; vida cheia de sentido; crescimento pessoal; relações sociais positivas e autonomia (empoderamento).
LIBERDADE: ausência de submissão, servidão; elemento qualificador é constituidor da condição dos comportamentos humanos voluntários.
VIRTUDE: é uma qualidade moral particular. São todos os hábitos constantes que levam o homem para o bem, quer como indivíduo, quer como espécie, quer como pessoalmente, quer coletivamente.
Segundo Aristóteles é uma disposição adquirida de fazer o bem, e elas se aperfeiçoam com o hábito.


Referências Bibliográficas
DOSTOIÉVSKI. Crime e Castigo. Coleção a Obra Prima de Cada Autor. Ed. Martin Claret. São Paulo: 2004.
IKEDA, Daisaku. Segurança humana e sustentabilidade: compartilhar o respeito pela dignidade da vida. [Tradução Mariana Ballestero Sales Vieira]. Revista Terceira Civilização. São Paulo: Editora Brasil Seikyo, 2012.
PAINE, Thomas. Senso Comum. São Paulo: Martin Claret, 2005.
PAINEL de Alto Nível do Secretário-Geral das Nações Unidas sobre Sustentabilidade Global (2012). Povos Resilientes, Planeta Resiliente: um Futuro Digno de Escolha. Nova York: Nações Unidas.
SACHS, Jeffrey D. O fim da pobreza: como acabar com a miséria mundial nos próximos vinte anos. Prefácio Bono; prefácio à edição brasileira Rubens Ricupero; [tradução de Pedro Maia Soares]. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.
SANDEL, Michel J. Justiça – O que é fazer a coisa certa. [tradução 6ª ed. de Heloísa Matias e Maria Alice Máximo]. 6ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012.
SEN, Amartya. Desenvolvimento como liberdade. Tradução Laura Teixeira Motta; revisão técnica Ricardo Doninelli Mendes. São Paulo: Companhia das Letras, 2010.
SEIKYO Shimbun do dia 26 de junho de 2010


[1] Professor e Defensor dos Direitos Naturais do Homem

quarta-feira, 16 de maio de 2012

DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS


DECLARAÇÃO UNIVERSAL DOS DIREITOS HUMANOS
Adotada e proclamada pela resolução 217 A (III) da Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948
Preâmbulo
Considerando que o reconhecimento da dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo,
Considerando que o desprezo e o desrespeito pelos direitos humanos resultaram em atos bárbaros que ultrajaram a consciência da Humanidade e que o advento de um mundo em que os homens gozem de liberdade de palavra, de crença e da liberdade de viverem a salvo do temor e da necessidade foi proclamado como a mais alta aspiração do homem comum,
Considerando essencial que os direitos humanos sejam protegidos pelo Estado de Direito, para que o homem não seja compelido, como último recurso, à rebelião contra tirania e a opressão,
Considerando essencial promover o desenvolvimento de relações amistosas entre as nações,
Considerando que os povos das Nações Unidas reafirmaram, na Carta, sua fé nos direitos humanos fundamentais, na dignidade e no valor da pessoa humana e na igualdade de direitos dos homens e das mulheres, e que decidiram promover o progresso social e melhores condições de vida em uma liberdade mais ampla,
Considerando que os Estados-Membros se comprometeram a desenvolver, em cooperação com as Nações Unidas, o respeito universal aos direitos humanos e liberdades fundamentais e a observância desses direitos e liberdades,
Considerando que uma compreensão comum desses direitos e liberdades é da alta importância para o pleno cumprimento desse compromisso,

A Assembleia Geral proclama

A presente Declaração Universal dos Diretos Humanos como o ideal comum a ser atingido por todos os povos e todas as nações, com o objetivo de que cada indivíduo e cada órgão da sociedade, tendo sempre em mente esta Declaração, se esforce, através do ensino e da educação, por promover o respeito a esses direitos e liberdades, e, pela adoção de medidas progressivas de caráter nacional e internacional, por assegurar o seu reconhecimento e a sua observância universais e efetivos, tanto entre os povos dos próprios Estados-Membros, quanto entre os povos dos territórios sob sua jurisdição.  
Artigo I
Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direitos. São dotadas de razão e consciência e devem agir em relação umas às outras com espírito de fraternidade.  
Artigo II
Toda pessoa tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, língua, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição.
Artigo III
Toda pessoa tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal.
Artigo IV
Ninguém será mantido em escravidão ou servidão, a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.  
Artigo V
Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.
Artigo VI
Toda pessoa tem o direito de ser, em todos os lugares, reconhecida como pessoa perante a lei.  
Artigo VII
Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.  
Artigo VIII
Toda pessoa tem direito a receber dos tributos nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.  
Artigo IX
Ninguém será arbitrariamente preso, detido ou exilado.  
Artigo X
Toda pessoa tem direito, em plena igualdade, a uma audiência justa e pública por parte de um tribunal independente e imparcial, para decidir de seus direitos e deveres ou do fundamento de qualquer acusação criminal contra ele.  
Artigo XI
1. Toda pessoa acusada de um ato delituoso tem o direito de ser presumida inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido assegurada todas as garantias necessárias à sua defesa.   
2. Ninguém poderá ser culpado por qualquer ação ou omissão que, no momento, não constituíam delito perante o direito nacional ou internacional. Tampouco será imposta pena mais forte do que aquela que, no momento da prática, era aplicável ao ato delituoso.
Artigo XII
Ninguém será sujeito a interferências na sua vida privada, na sua família, no seu lar ou na sua correspondência, nem a ataques à sua honra e reputação. Toda pessoa tem direito à proteção da lei contra tais interferências ou ataques.
Artigo XIII
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de locomoção e residência dentro das fronteiras de cada Estado.   
2. Toda pessoa tem o direito de deixar qualquer país, inclusive o próprio, e a este regressar.
Artigo XIV
1.Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.   
2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.
Artigo XV
1. Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.   
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua nacionalidade, nem do direito de mudar de nacionalidade.
Artigo XVI
1. Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.   
2. O casamento não será válido senão com o livre e pleno consentimento dos nubentes.
Artigo XVII
1. Toda pessoa tem direito à propriedade, só ou em sociedade com outros.   
2. Ninguém será arbitrariamente privado de sua propriedade.
Artigo XVIII
Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.
Artigo XIX
Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras.
Artigo XX
1. Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e associação pacíficas.   
2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.
Artigo XXI
1. Toda pessoa tem o direito de tomar parte no governo de seu país, diretamente ou por intermédio de representantes livremente escolhidos.   
2. Toda pessoa tem igual direito de acesso ao serviço público do seu país.   
3. A vontade do povo será a base da autoridade do governo; esta vontade será expressa em eleições periódicas e legítimas, por sufrágio universal, por voto secreto ou processo  equivalente que assegure a liberdade de voto.
Artigo XXII
Toda pessoa, como membro da sociedade, tem direito à segurança social e à realização, pelo esforço nacional, pela cooperação internacional e de acordo com a organização e recursos de cada Estado, dos direitos econômicos, sociais e culturais indispensáveis à sua dignidade e ao livre desenvolvimento da sua personalidade.
Artigo XXIII
1.Toda pessoa tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego.   
2. Toda pessoa, sem qualquer distinção, tem direito a igual remuneração por igual trabalho.   
3. Toda pessoa que trabalhe tem direito a uma remuneração justa e satisfatória, que lhe assegure, assim como à sua família, uma existência compatível com a dignidade humana, e a que se acrescentarão, se necessário, outros meios de proteção social.   
4. Toda pessoa tem direito a organizar sindicatos e neles ingressar para proteção de seus interesses.
Artigo XXIV
Toda pessoa tem direito a repouso e lazer, inclusive a limitação razoável das horas de trabalho e férias periódicas remuneradas.
Artigo XXV
1. Toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis, e direito à segurança em caso de desemprego, doença, invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência fora de seu controle.   
2. A maternidade e a infância têm direito a cuidados e assistência especiais. Todas as crianças nascidas dentro ou fora do matrimônio gozarão da mesma proteção social.
Artigo XXVI
1. Toda pessoa tem direito à instrução. A instrução será gratuita, pelo menos nos graus elementares e fundamentais. A instrução elementar será obrigatória. A instrução técnico-profissional será acessível a todos, bem como a instrução superior, esta baseada no mérito.   
2. A instrução será orientada no sentido do pleno desenvolvimento da personalidade humana e do fortalecimento do respeito pelos direitos humanos e pelas liberdades fundamentais. A instrução promoverá a compreensão, a tolerância e a amizade entre todas as nações e grupos raciais ou religiosos, e coadjuvará as atividades das Nações Unidas em prol da manutenção da paz.   
3. Os pais têm prioridade de direito na escolha do gênero de instrução que será ministrada a seus filhos.
Artigo XXVII
1. Toda pessoa tem o direito de participar livremente da vida cultural da comunidade, de fruir as artes e de participar do processo científico e de seus benefícios.   
2. Toda pessoa tem direito à proteção dos interesses morais e materiais decorrentes de qualquer produção científica, literária ou artística da qual seja autor.
Artigo XXVIII
Toda pessoa tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados.
Artigo XXIV
1. Toda pessoa tem deveres para com a comunidade, em que o livre e pleno desenvolvimento de sua personalidade é possível.   
2. No exercício de seus direitos e liberdades, toda pessoa estará sujeita apenas às limitações determinadas pela lei, exclusivamente com o fim de assegurar o devido reconhecimento e respeito dos direitos e liberdades de outrem e de satisfazer às justas exigências da moral, da ordem pública e do bem-estar de uma sociedade democrática.   
3. Esses direitos e liberdades não podem, em hipótese alguma, ser exercidos contrariamente aos propósitos e princípios das Nações Unidas.
Artigo XXX
Nenhuma disposição da presente Declaração pode ser interpretada como o reconhecimento a qualquer Estado, grupo ou pessoa, do direito de exercer qualquer atividade ou praticar qualquer ato destinado à destruição de quaisquer dos direitos e liberdades aqui estabelecidos.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

CONTO DE ESCOLA - Machado de Assis


CONTO DE ESCOLA


Machado de Assis.


A escola era na Rua do Costa, um sobradinho de grade de pau. O ano era de 1840. Naquele dia - uma segunda-feira, do mês de maio - deixei-me estar alguns instantes na Rua da Princesa a ver onde iria brincar a manhã. Hesitava entre o morro de S. Diogo e o Campo de Sant'Ana, que não era então esse parque atual, construção de gentleman, mas um espaço rústico, mais ou menos infinito, alastrado de lavadeiras, capim e burros soltos. Morro ou campo? Tal era o problema. De repente disse comigo que o melhor era a escola. E guiei para a escola. Aqui vai a razão.

Na semana anterior tinha feito dois suetos, e, descoberto o caso, recebi o pagamento das mãos de meu pai, que me deu uma sova de vara de marmeleiro. As sovas de meu pai doíam por muito tempo. Era um velho empregado do Arsenal de Guerra, ríspido e intolerante. Sonhava para mim uma grande posição comercial, e tinha ânsia de me ver com os elementos mercantis, ler, escrever e contar, para me meter de caixeiro. Citava-me nomes de capitalistas que tinham começado ao balcão. Ora, foi a lembrança do último castigo que me levou naquela manhã para o colégio. Não era um menino de virtudes.

Subi a escada com cautela, para não ser ouvido do mestre, e cheguei a tempo; ele entrou na sala três ou quatro minutos depois. Entrou com o andar manso do costume, em chinelas de cordovão, com a jaqueta de brim lavada e desbotada, calça branca e tesa e grande colarinho caído. Chamava-se Policarpo e tinha perto de cinqüenta anos ou mais. Uma vez sentado, extraiu da jaqueta a boceta de rapé e o lenço vermelho, pô-los na gaveta; depois relanceou os olhos pela sala. Os meninos, que se conservaram de pé durante a entrada dele, tornaram a sentar-se. Tudo estava em ordem; começaram os trabalhos.

- Seu Pilar, eu preciso falar com você, disse-me baixinho o filho do mestre.

Chamava-se Raimundo este pequeno, e era mole, aplicado, inteligência tarda. Raimundo gastava duas horas em reter aquilo que a outros levava apenas trinta ou cinqüenta minutos; vencia com o tempo o que não podia fazer logo com o cérebro. Reunia a isso um grande medo ao pai. Era uma criança fina, pálida, cara doente; raramente estava alegre. Entrava na escola depois do pai e retirava-se antes. O mestre era mais severo com ele do que conosco.

- O que é que você quer?

- Logo, respondeu ele com voz trêmula.

Começou a lição de escrita. Custa-me dizer que eu era dos mais adiantados da escola; mas era. Não digo também que era dos mais inteligentes, por um escrúpulo fácil de entender e de excelente efeito no estilo, mas não tenho outra convicção. Note-se que não era pálido nem mofino: tinha boas cores e músculos de ferro. Na lição de escrita, por exemplo, acabava sempre antes de todos, mas deixava-me estar a recortar narizes no papel ou na tábua, ocupação sem nobreza nem espiritualidade, mas em todo caso ingênua. Naquele dia foi a mesma coisa; tão depressa acabei, como entrei a reproduzir o nariz do mestre, dando-lhe cinco ou seis atitudes diferentes, das quais recordo a interrogativa, a admirativa, a dubitativa e a cogitativa. Não lhes punha esses nomes, pobre estudante de primeiras letras que era; mas, instintivamente, dava-lhes essas expressões. Os outros foram acabando; não tive remédio senão acabar também, entregar a escrita, e voltar para o meu lugar.

Com franqueza, estava arrependido de ter vindo. Agora que ficava preso, ardia por andar lá fora, e recapitulava o campo e o morro, pensava nos outros meninos vadios, o Chico Telha, o Américo, o Carlos das Escadinhas, a fina flor do bairro e do gênero humano. Para cúmulo de desespero, vi através das vidraças da escola, no claro azul do céu, por cima do morro do Livramento, um papagaio de papel, alto e largo, preso de uma corda imensa, que bojava no ar, uma coisa soberba. E eu na
escola, sentado, pernas unidas, com o livro de leitura e a gramática nos joelhos.

- Fui um bobo em vir, disse eu ao Raimundo.

- Não diga isso, murmurou ele.

Olhei para ele; estava mais pálido. Então lembrou-me outra vez que queria pedir-me alguma coisa, e perguntei-lhe o que era. Raimundo estremeceu de novo, e, rápido, disse-me que esperasse um pouco; era uma coisa particular.

- Seu Pilar... murmurou ele daí a alguns minutos.

- Que é?

- Você...

- Você quê?

Ele deitou os olhos ao pai, e depois a alguns outros meninos. Um destes, o Curvelo, olhava para ele, desconfiado, e o Raimundo, notando-me essa circunstância, pediu alguns minutos mais de espera. Confesso que começava a arder de curiosidade. Olhei para o Curvelo, e vi que parecia atento; podia ser uma simples curiosidade vaga, natural indiscrição; mas podia ser também alguma coisa entre eles. Esse Curvelo era um pouco levado do diabo. Tinha onze anos, era mais velho que nós.

Que me quereria o Raimundo? Continuei inquieto, remexendo-me muito, falando-lhe baixo, com instância, que me dissesse o que era, que ninguém cuidava dele nem de mim. Ou então, de tarde...

- De tarde, não, interrompeu-me ele; não pode ser de tarde.

- Então agora...

- Papai está olhando.

Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais aperreado. Mas nós também éramos finos; metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia devagar, mastigando as idéias e as paixões. Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a agitação pública. Policarpo tinha decerto algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada do portal da janela, à direita, com os seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí, pode ser que alguma vez as paixões políticas dominassem nele a ponto de poupar-nos uma ou outra correção. Naquele dia, ao menos, pareceu-me que lia as folhas com muito interesse; levantava os olhos de quando em quando, ou tomava uma pitada, mas tornava logo aos jornais, e lia a valer.

No fim de algum tempo - dez ou doze minutos - Raimundo meteu a mão no bolso das calças e olhou para mim.

- Sabe o que tenho aqui?

- Não.

- Uma pratinha que mamãe me deu.

- Hoje?

- Não, no outro dia, quando fiz anos...

- Pratinha de verdade?

- De verdade.

Tirou-a vagarosamente, e mostrou-me de longe. Era uma moeda do tempo do rei, cuido que doze vinténs ou dois tostões, não me lembro; mas era uma moeda, e tal moeda que me fez pular o sangue no coração. Raimundo revolveu em mim o olhar pálido; depois perguntou-me se a queria para mim. Respondi-lhe que estava caçoando, mas ele jurou que não.

- Mas então você fica sem ela?

- Mamãe depois me arranja outra. Ela tem muitas que vovô lhe deixou, numa caixinha; algumas são de ouro. Você quer esta?

Minha resposta foi estender-lhe a mão disfarçadamente, depois de olhar para a mesa do mestre. Raimundo recuou a mão dele e deu à boca um gesto amarelo, que queria sorrir. Em seguida propôs-me um negócio, uma troca de serviços; ele me daria a moeda, eu lhe explicaria um ponto da lição de sintaxe. Não conseguira reter nada do livro, e estava com medo do pai. E concluía a proposta esfregando a pratinha nos joelhos...

Tive uma sensação esquisita. Não é que eu possuísse da virtude uma idéia antes própria de homem; não é também que não fosse fácil em empregar uma ou outra mentira de criança. Sabíamos ambos enganar ao mestre. A novidade estava nos termos da proposta, na troca de lição e dinheiro, compra franca, positiva, toma lá, dá cá; tal foi a causa da sensação. Fiquei a olhar para ele, à toa, sem poder dizer nada.

Compreende-se que o ponto da lição era difícil, e que o Raimundo, não o tendo aprendido, recorria a um meio que lhe pareceu útil para escapar ao castigo do pai. Se me tem pedido a coisa por favor, alcançá-la-ia do mesmo modo, como de outras vezes, mas parece que era lembrança das outras vezes, o medo de achar a minha vontade frouxa ou cansada, e não aprender como queria, - e pode ser mesmo que em alguma ocasião lhe tivesse ensinado mal, - parece que tal foi a causa da proposta. O pobre-diabo contava com o favor, - mas queria assegurar-lhe a eficácia, e daí recorreu à moeda que a mãe lhe dera e que ele guardava como relíquia ou brinquedo; pegou dela e veio esfregá-la nos joelhos, à minha vista, como uma tentação... Realmente, era bonita, fina, branca, muito branca; e para mim, que só trazia cobre no bolso, quando trazia alguma coisa, um cobre feio, grosso, azinhavrado...

Não queria recebê-la, e custava-me recusá-la. Olhei para o mestre, que continuava a ler, com tal interesse, que lhe pingava o rapé do nariz. - Ande, tome, dizia-me baixinho o filho. E a pratinha fuzilava-lhe entre os dedos, como se fora diamante... Em verdade, se o mestre não visse nada, que mal havia? E ele não podia ver nada, estava agarrado aos jornais, lendo com fogo, com indignação...

- Tome, tome...

Relancei os olhos pela sala, e dei com os do Curvelo em nós; disse ao Raimundo que esperasse. Pareceu-me que o outro nos observava, então dissimulei; mas daí a pouco deitei-lhe outra vez o olho, e - tanto se ilude a vontade! - não lhe vi mais nada. Então cobrei ânimo.

- Dê cá...

Raimundo deu-me a pratinha, sorrateiramente; eu meti-a na algibeira das calças, com um alvoroço que não posso definir. Cá estava ela comigo, pegadinha à perna. Restava prestar o serviço, ensinar a lição e não me demorei em fazê-lo, nem o fiz mal, ao menos conscientemente; passava-lhe a explicação em um retalho de papel que ele recebeu com cautela e cheio de atenção. Sentia-se que despendia um esforço cinco ou seis vezes maior para aprender um nada; mas contanto que ele escapasse ao castigo, tudo iria bem.

De repente, olhei para o Curvelo e estremeci; tinha os olhos em nós, com um riso que me pareceu mau. Disfarcei; mas daí a pouco, voltando-me outra vez para ele, achei-o do mesmo modo, com o mesmo ar, acrescendo que entrava a remexer-se no banco, impaciente. Sorri para ele e ele não sorriu; ao contrário, franziu a testa, o que lhe deu um aspecto ameaçador. O coração bateu-me muito.

- Precisamos muito cuidado, disse eu ao Raimundo.

- Diga-me isto só, murmurou ele.

Fiz-lhe sinal que se calasse; mas ele instava, e a moeda, cá no bolso, lembrava-me o contrato feito. Ensinei-lhe o que era, disfarçando muito; depois, tornei a olhar para o Curvelo, que me pareceu ainda mais inquieto, e o riso, dantes mau, estava agora pior. Não é preciso dizer que também eu ficara em brasas, ansioso que a aula acabasse; mas nem o relógio andava como das outras vezes, nem o mestre fazia caso da escola; este lia os jornais, artigo por artigo, pontuando-os com exclamações, com gestos de ombros, com uma ou duas pancadinhas na mesa. E lá fora, no céu azul, por cima do morro, o mesmo eterno papagaio, guinando a um lado e outro, como se me chamasse a ir ter com ele. Imaginei-me ali, com os livros e a pedra embaixo da mangueira, e a pratinha no bolso das calças, que eu não daria a ninguém, nem que me serrassem; guardá-la-ia em casa, dizendo a mamãe que a tinha achado na rua. Para que me não fugisse, ia-a apalpando, roçando-lhe os dedos pelo cunho, quase lendo pelo tato a inscrição, com uma grande vontade de espiá-la.

- Oh! seu Pilar! bradou o mestre com voz de trovão.

Estremeci como se acordasse de um sonho, e levantei-me às pressas. Dei com o mestre, olhando para mim, cara fechada, jornais dispersos, e ao pé da mesa, em pé, o Curvelo. Pareceu-me adivinhar tudo.

- Venha cá! bradou o mestre.

Fui e parei diante dele. Ele enterrou-me pela consciência dentro um par de olhos pontudos; depois chamou o filho. Toda a escola tinha parado; ninguém mais lia, ninguém fazia um só movimento. Eu, conquanto não tirasse os olhos do mestre, sentia no ar a curiosidade e o pavor de todos.

- Então o senhor recebe dinheiro para ensinar as lições aos outros? disse-me o Policarpo.

- Eu...

- Dê cá a moeda que este seu colega lhe deu! clamou.

Não obedeci logo, mas não pude negar nada. Continuei a tremer muito. Policarpo bradou de novo que lhe desse a moeda, e eu não resisti mais, meti a mão no bolso, vagarosamente, saquei-a e entreguei-lha. Ele examinou-a de um e outro lado, bufando de raiva; depois estendeu o braço e atirou-a à rua. E então disse-nos uma porção de coisas duras, que tanto o filho como eu acabávamos de praticar uma ação feia, indigna, baixa, uma vilania, e para emenda e exemplo íamos ser castigados. Aqui pegou da palmatória.

- Perdão, seu mestre... solucei eu.

- Não há perdão! Dê cá a mão! Dê cá! Vamos! Sem-vergonha! Dê cá a mão!

- Mas, seu mestre...

- Olhe que é pior!

Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, que me deixaram as palmas vermelhas e inchadas. Chegou a vez do filho, e foi a mesma coisa; não lhe poupou nada, dois, quatro, oito, doze bolos. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos sem-vergonhas, desaforados, e jurou que se repetíssemos o negócio apanharíamos tal castigo que nos havia de lembrar para todo o sempre. E exclamava: Porcalhões! tratantes! faltos de brio!

Eu, por mim, tinha a cara no chão. Não ousava fitar ninguém, sentia todos os olhos em nós. Recolhi-me ao banco, soluçando, fustigado pelos impropérios do mestre. Na sala arquejava o terror; posso dizer que naquele dia ninguém faria igual negócio. Creio que o próprio Curvelo enfiara de medo. Não olhei logo para ele, cá dentro de mim jurava quebrar-lhe a cara, na rua, logo que saíssemos, tão certo como três e dois serem cinco.

Daí a algum tempo olhei para ele; ele também olhava para mim, mas desviou a cara, e penso que empalideceu. Compôs-se e entrou a ler em voz alta; estava com medo. Começou a variar de atitude, agitando-se à toa, coçando os joelhos, o nariz. Pode ser até que se arrependesse de nos ter denunciado; e na verdade, por que denunciar-nos? Em que é que lhe tirávamos alguma coisa?

- Tu me pagas! tão duro como osso! dizia eu comigo.

Veio a hora de sair, e saímos; ele foi adiante, apressado, e eu não queria brigar ali mesmo, na Rua do Costa, perto do colégio; havia de ser na Rua larga São Joaquim. Quando, porém, cheguei à esquina, já o não vi; provavelmente escondera-se em algum corredor ou loja; entrei numa botica, espiei em outras casas, perguntei por ele a algumas pessoas, ninguém me deu notícia. De tarde faltou à escola.

Em casa não contei nada, é claro; mas para explicar as mãos inchadas, menti a minha mãe, disse-lhe que não tinha sabido a lição. Dormi nessa noite, mandando ao diabo os dois meninos, tanto o da denúncia como o da moeda. E sonhei com a moeda; sonhei que, ao tornar à escola, no dia seguinte, dera com ela na rua, e a apanhara, sem medo nem escrúpulos...

De manhã, acordei cedo. A idéia de ir procurar a moeda fez-me vestir depressa. O dia estava esplêndido, um dia de maio, sol magnífico, ar brando, sem contar as calças novas que minha mãe me deu, por sinal que eram amarelas. Tudo isso, e a pratinha... Saí de casa, como se fosse trepar ao trono de Jerusalém. Piquei o passo para que ninguém chegasse antes de mim à escola; ainda assim não andei tão depressa que amarrotasse as calças. Não, que elas eram bonitas! Mirava-as, fugia aos encontros, ao lixo da rua...

Na rua encontrei uma companhia do batalhão de fuzileiros, tambor à frente, rufando. Não podia ouvir isto quieto. Os soldados vinham batendo o pé rápido, igual, direita, esquerda, ao som do rufo; vinham, passaram por mim, e foram andando. Eu senti uma comichão nos pés, e tive ímpeto de ir atrás deles. Já lhes disse: o dia estava lindo, e depois o tambor... Olhei para um e outro lado; afinal, não sei como foi, entrei a marchar também ao som do rufo, creio que cantarolando alguma coisa: Rato na casaca... Não fui à escola, acompanhei os fuzileiros, depois enfiei pela Saúde, e acabei a manhã na Praia da Gamboa. Voltei para casa com as calças enxovalhadas, sem pratinha no bolso nem ressentimento na alma. E contudo a pratinha era bonita e foram eles, Raimundo e Curvelo, que me deram o primeiro conhecimento, um da corrupção, outro da delação; mas o diabo do tambor...

sábado, 31 de dezembro de 2011

FELIZ ANO NOVO DE NOVO!

Feliz Ano Novo de novo!
Pois é, mais uma passagem de ano.
Réveillon é uma palavra que tem seu seguinte significado: ficar acordado, fazer vigília. Ou seja, em nosso caso é o ato de ficar acordado para a despedida de mais um ano, e aguardar a chegada de um ano novo. Melhor dizendo ficamos acordados para nos despedirmos do velho e recebermos o novo.
No escrito Carta de Ano Novo do sábio japonês Nitiren Daishonin consta a passagem "O ano-novo marca o primeiro dia, o primeiro mês, o início do ano... Quem celebra esse dia tornar-se-á mais virtuoso e será amado por todos."
O grande poeta Pablo Neruda em seus versos escreveu "Feliz ano, este ano, para ti, para todos os homens, e as terras...".
Por último vale citar o saudoso poeta brasileiro Carlos Drummond de Andrade que disse "Quem teve a ideia de cortar o tempo em fatias, a que se deu o nome de ano, foi um indivíduo genial. Industrializou a esperança, fazendo-a funcionar no limite da exaustão. Doze meses dão para qualquer ser humano se cansar e entregar os pontos. Aí entra o milagre da renovação e tudo começa outra vez, com outro número e outra vontade de acreditar que daqui para diante vai ser diferente."
Feliz ano novo para todos! 
É o que rogo de coração!

É isso ai!